Chegada a família a casa, o papá faz cara de quem traz grandes novidades... e, apontando para a sala comum, lugar costumeiro de armazenagem de presentes (oferecidos, por oferecer, embalados, por embalar, definitivos e à espera de destinatário), prolonga ainda um pouco mais o suspense que até então vinha fazendo....
papá - isto cada ano há uma surpresa...!
eu - não posso! Está outra vez um faizão vivo aí dentro?
papá - não.... é ainda mais rebuscado!... (remata, apontando para cima da mesa)
eu - mas que raio é isto?
papá - é uma magnífica fonte de chocolate quente! (acrescenta o papá, não sem um certo sarcásmo)
eu - hmm...
papá - que tal?
eu - hmm...
papá - ah? (perante a ausência de resposta, o papá prossegue com os detalhes técnicos)... é só comprar o chocolate e...
eu - (exacto, e uma embalagenzinha de Veet também não é má ideia)
quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009
Da quadra
Diz que ao tronco e ao elefante, só há uma forma de os comer...
... às fatias.
Nota: A expressão "comer um elefante às fatias", significa resolver um problema por partes. (É certo que se perde em chavascal, mas ganha-se em cultura e elegância no comemorar)
... às fatias.
Nota: A expressão "comer um elefante às fatias", significa resolver um problema por partes. (É certo que se perde em chavascal, mas ganha-se em cultura e elegância no comemorar)
domingo, 20 de Dezembro de 2009
Estava a Dona Inês posta em sossego
Há noites, cuja marca indelével que nos deixam, começa por vezes por se manifestar apenas, sob a forma visualmente ténue, ainda que olfativamente intensa, de uma silhueta masculina. Com um movimento discreto de cabeça, tirei os olhos da cerveja e do balcão e concentrei a minha atenção no macho que se apresentara à minha esquerda e cuja presença odorífera os meus sentidos já haviam captado. Debruçado sobre o balcão, o puro-sangue envergava uma T-shirt de alças coleante e de cuja gola traseira refulgia um tufo piloso singular e, cuja imponente farfalhudez, contrastava com a aparente calvice dos ombros nus. Tal foi a impressão que em mim causou aquela concentração capilosa que os meus olhos, que até então somente tinham vagabundeado pela superfície insípida e marmorea do balcão, nunca mais daquela visão se puderam apartar.
Toda a noite congeminei secretamente formas de o abordar, embora o assombro e bem assim a indecisão, me tenham impedido de dar esse derradeiro passo:
Hipótese a)
- Mal que te pergunte, isso são míscaros?
Hipótese b)
- Sabes, a parte que eu gosto mais do churrasco é cupim!
Hipótese c)
- Ai filho, olha que esse musgo não é para qualquer presépio!
Hipótese d)
- Essa qualidade de feno, deixa-me totalmente febril!
Hipótese e)
- Troco o meu T5 em Cascais por uma Casa na Pradaria!
Hipóteses f)
- Olá, nunca tinha visto um estigmatizado de pura lã virgem!
Toda a noite congeminei secretamente formas de o abordar, embora o assombro e bem assim a indecisão, me tenham impedido de dar esse derradeiro passo:
Hipótese a)
- Mal que te pergunte, isso são míscaros?
Hipótese b)
- Sabes, a parte que eu gosto mais do churrasco é cupim!
Hipótese c)
- Ai filho, olha que esse musgo não é para qualquer presépio!
Hipótese d)
- Essa qualidade de feno, deixa-me totalmente febril!
Hipótese e)
- Troco o meu T5 em Cascais por uma Casa na Pradaria!
Hipóteses f)
- Olá, nunca tinha visto um estigmatizado de pura lã virgem!
jantar de Natal
Marta - São tão giros estes babygrows que a tia ofereceu para Inês, não são?
Todas - São um máximo!...
Ana - Dá mesmo vontade de...
Eu - Ser mamã?
Ana - Não, parva, de ser bébé outra vez...
Todas - São um máximo!...
Ana - Dá mesmo vontade de...
Eu - Ser mamã?
Ana - Não, parva, de ser bébé outra vez...
quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009
Sol na eira e chuva no nabal
Foi com o pesar das palpebras. É nesse limbo que começam e se precipitam todos os sonhos... Sei que de tal maneira se fez noite em seu redor que talvez tenha começado precisamente aí o haver sonhado. A custo, num esforço de inversão de marcha ao sentido do corpo, descerrou as palpebras. E foi apenas nesse momento que percebeu que estava no centro de um palco. Na plateia vazia, um único homem ocupava um dos assentos da fila da frente. Na cadeira do lado tinha uma máquina de café de saco que gorgulhava. Um cheiro intenso a café, entrou-lhe então pelas narinas. Era um cheiro aquoso e familiar.
Perante a indecisão da rapariga, o homem, que enrolava despreocupadamente um cigarro, fez um gesto de cabeça em direcção da máquina: Quer um café?. Não, obrigada, balbuciou. "Hmm Hmm", disse ele, enquanto fazia deslizar a língua ao comprido da mortalha. Alisando por fim o canudo do cigarro com as pontas dos dedos, bateu então com ele contra o braço da cadeira. Depois, dirigindo-se à rapariga: Sabe o seu papel? O meu papel... respondeu ela interrogativamente. Sol na Eira e Chuva no Nabal, não era isso que queria? Como ela não reagisse, prosseguiu: Esta peça foi escrita para si. Ou terá sido escrita por si?... Os outros já estão à sua espera, rematou, apontado para o palco. Foi então que a rapariga se apercebeu de que estavam mais 4 homens em palco, cuja presença não havia notado anteriormente. Atónita, devolveu o olhar ao homem da plateia que, fumando agora placidamente o seu cigarro, a fitava também, esperando uma reacção. Como o silêncio não interrompesse a sua marcha, interpelou-a novamente, mas desta feita com um enigmático sorriso.
Certa de que não obteria resposta ali, a rapariga fixou o olhar nos 4 homens em palco. Tinha a impressão nítida de estar diante de uma escutura vívida de Juan Muñoz. Estava ela demorada neste pensamento, quando, de repente, como se alguém tivesse dado corda às misteriosas figuras, os 4 homens começaram a mexer-se em palco, falando todos ao mesmo tempo, e bem assim, cada um na sua vez. No entanto, cada um deles se movia como peças soltas e independentes entre si, formando um conjunto que só o era devido à coincidência do espaço e do tempo.
Num dado momento que ela não soube precisar, o mais velho dos homens olhou para ela, como que reemergido daquele macabro ritual e, fitando-a dirigiu-se-lhe a correr. Tinha o olhar alucinado e as vestes andrajosas de um velho do restelo e gritava-lhe, cuspindo-lhe inadvertidamente a cara: olha para mim, concentra-te em mim, esquece os outros, é para mim que tens de olhar e só para mim - e dizendo isto - empunhava na direcção dela um espelho, cujo reflexo colidia com a luz dos holofotes e a encandeavam, obrigando-a a desviar o olhar. Olha para mim, gritava-me ele, é para mim que tens de olhar. - As palavras saíam-lhe da boca numa espiral de rancor e desespero - E o anel que eu te ofereci, nunca mais usaste o anel que te ofereci, quebraste o nosso compromisso sagrado... E, rompendo em soluços de dentes cerrados, mostrava-lhe agora o anel que tirara do bolso esquerdo das vestes... Olha para mim, murmurava, não tires o olhar de mim...
Imóvel no terror que aquela figura lhe inspirava, ela devolvia-lhe um olhar estagnado e impotente como o silêncio que se apoderara entretanto de cena. O velho deu dois passos atrás e o foco que sobre ele recaira até então, apagou-se, para se deslocar depois, para um outro homem que, do fundo do palco caminhava em direcção a ela com uma criança nos braços. O choro desta, encobrira então tudo à sua volta. Estacando, começou a falar-lhe como se a conhecesse toda a vida: Está na hora de dares de comer ao Afonso, agarra no teu filho, não vês que ele está cheio de fome, agarra no Afonso - e estendia-lhe a criança como se de uma oferenda se tratasse - Está na hora, está na hora... ( na plateia, o homem-encenador, pousava o papel onde até então tinha estado a tomar notas e servia-se agora de outro café. Percebendo que a rapariga se voltara de novo para ele de olhar suplicante, fazia-lhe sinais com a mão livre para que prosseguisse com a cena... ). Desorientada e muda, ela estendera finalmente os braços e, quando o bébé estava prestes a tocar-lhe as mãos, levanta-se o homem da plateia e grita: - Senhores, essa cena não é deste acto! O homem do bébé, que o recolhera a si inconscientemente, fitava agora o encenador com um ar perplexo: Ainda não é agora? Mas ainda não é agora? Então mas quando é que eu entro? Pensava que era agora... Então e o Afonsinho? O Afonsinho tem fome... (O homem da plateia consultava uma vez mais as folhas e insistia que não). Cabisbaixo, o homem do bébé vira costas à rapariga e, quando se encaminhava já para fora de cena, eis que um terceiro homem irrompe de entre os presentes para lançar :
"A mim é que me devias vir dar de mamar, ó Yocasta!..." Todos os presentes estacaram e, voltando-se todos para ele, rebentaram numa gargalhada geral que invadiu a sala com estrondo, abafando o até então omnipresente choro do bébé. Recompondo-se, o homem da laracha, interpela ainda o encenador, Desta até o Sófocles se ria!... - Nova gargalhadada colectiva -.
A rapariga, cujo desconcerto lhe tolhera uma vez mais os movimentos, fitava agora com ódio o da coroa e das vestes gregas. Bem metida, riposta o encenador, já podes sair. Então e isto? - pergunta ainda o que trazia a coroa, segurando um cabide com uma lingerie vermelha berrante. Não era suposto ela vestir isto? Não, adverte o homem da plateia, - tens é de dizer a deixa a empunhar o cabide. Ah, ok, então vamos repetir? Interrogou-se ainda. Não vamos nada repetir! - Grita a rapariga - Vamos é acabar já com isto... remata ela em desespero, voltando-se para o encenador.
Subitamente, reaparece em cena o homem do bébé, É para entrar agora? Quando é que é para eu entrar? (O encenador acena uma vez mais negativamente. O homem do bébé, roda sobre os calcanhares frustrado, e volta a sair). Derrotada e incapaz de se defender, a rapariga insiste: Podemos acabar com isto? O encenador aponta para o fundo do palco. Acende-se outro holofote. Ilumina-se o 4º homem. Este, vestido como um nobre, vem montado num cavalo de pau e, desembainhando a espada de latão, começa às voltas no palco, bradando impropériose esconjurando demónios. Depois, estacando, aponta a espada à cara da rapariga e diz num tom grave e acusativo: Duclineia, Duclineia, onde escondes tu os teus moínhos? E - acto contínuo - começa a revirar todos os objectos de cena, desferindo espadeiradas e golpes de punho no ar, vociferando fervorosamente.
Exausta, a rapariga senta-se à boca de cena e tapa os ouvidos com as mãos, dando as costas ao palco e ao reboliço causado pela actuação do 4º homem. As lágrimas escorrem-lhe pela cara. Faz-se de novo silêncio. Todos os homens re-entram e se agrupam no centro do palco, assumindo as posições em que estavam inicialmente. Em uníssono, repetem as suas deixas uma e outra vez. De todas as personagens que foi e que ainda a ensurdecem, a rapariga, encontra numa clareira do pensamento audível o homem da plateia sentado. A máquina do café gorgulha de novo. Aquele cheiro aquoso e familiar reentra-lhe pelas narinas. Quer um café?, pergunta o homem. Desta vez aceito, responde-lhe a rapariga.
Vamos recomeçar?
Perante a indecisão da rapariga, o homem, que enrolava despreocupadamente um cigarro, fez um gesto de cabeça em direcção da máquina: Quer um café?. Não, obrigada, balbuciou. "Hmm Hmm", disse ele, enquanto fazia deslizar a língua ao comprido da mortalha. Alisando por fim o canudo do cigarro com as pontas dos dedos, bateu então com ele contra o braço da cadeira. Depois, dirigindo-se à rapariga: Sabe o seu papel? O meu papel... respondeu ela interrogativamente. Sol na Eira e Chuva no Nabal, não era isso que queria? Como ela não reagisse, prosseguiu: Esta peça foi escrita para si. Ou terá sido escrita por si?... Os outros já estão à sua espera, rematou, apontado para o palco. Foi então que a rapariga se apercebeu de que estavam mais 4 homens em palco, cuja presença não havia notado anteriormente. Atónita, devolveu o olhar ao homem da plateia que, fumando agora placidamente o seu cigarro, a fitava também, esperando uma reacção. Como o silêncio não interrompesse a sua marcha, interpelou-a novamente, mas desta feita com um enigmático sorriso.
Certa de que não obteria resposta ali, a rapariga fixou o olhar nos 4 homens em palco. Tinha a impressão nítida de estar diante de uma escutura vívida de Juan Muñoz. Estava ela demorada neste pensamento, quando, de repente, como se alguém tivesse dado corda às misteriosas figuras, os 4 homens começaram a mexer-se em palco, falando todos ao mesmo tempo, e bem assim, cada um na sua vez. No entanto, cada um deles se movia como peças soltas e independentes entre si, formando um conjunto que só o era devido à coincidência do espaço e do tempo.
Num dado momento que ela não soube precisar, o mais velho dos homens olhou para ela, como que reemergido daquele macabro ritual e, fitando-a dirigiu-se-lhe a correr. Tinha o olhar alucinado e as vestes andrajosas de um velho do restelo e gritava-lhe, cuspindo-lhe inadvertidamente a cara: olha para mim, concentra-te em mim, esquece os outros, é para mim que tens de olhar e só para mim - e dizendo isto - empunhava na direcção dela um espelho, cujo reflexo colidia com a luz dos holofotes e a encandeavam, obrigando-a a desviar o olhar. Olha para mim, gritava-me ele, é para mim que tens de olhar. - As palavras saíam-lhe da boca numa espiral de rancor e desespero - E o anel que eu te ofereci, nunca mais usaste o anel que te ofereci, quebraste o nosso compromisso sagrado... E, rompendo em soluços de dentes cerrados, mostrava-lhe agora o anel que tirara do bolso esquerdo das vestes... Olha para mim, murmurava, não tires o olhar de mim...
Imóvel no terror que aquela figura lhe inspirava, ela devolvia-lhe um olhar estagnado e impotente como o silêncio que se apoderara entretanto de cena. O velho deu dois passos atrás e o foco que sobre ele recaira até então, apagou-se, para se deslocar depois, para um outro homem que, do fundo do palco caminhava em direcção a ela com uma criança nos braços. O choro desta, encobrira então tudo à sua volta. Estacando, começou a falar-lhe como se a conhecesse toda a vida: Está na hora de dares de comer ao Afonso, agarra no teu filho, não vês que ele está cheio de fome, agarra no Afonso - e estendia-lhe a criança como se de uma oferenda se tratasse - Está na hora, está na hora... ( na plateia, o homem-encenador, pousava o papel onde até então tinha estado a tomar notas e servia-se agora de outro café. Percebendo que a rapariga se voltara de novo para ele de olhar suplicante, fazia-lhe sinais com a mão livre para que prosseguisse com a cena... ). Desorientada e muda, ela estendera finalmente os braços e, quando o bébé estava prestes a tocar-lhe as mãos, levanta-se o homem da plateia e grita: - Senhores, essa cena não é deste acto! O homem do bébé, que o recolhera a si inconscientemente, fitava agora o encenador com um ar perplexo: Ainda não é agora? Mas ainda não é agora? Então mas quando é que eu entro? Pensava que era agora... Então e o Afonsinho? O Afonsinho tem fome... (O homem da plateia consultava uma vez mais as folhas e insistia que não). Cabisbaixo, o homem do bébé vira costas à rapariga e, quando se encaminhava já para fora de cena, eis que um terceiro homem irrompe de entre os presentes para lançar :
"A mim é que me devias vir dar de mamar, ó Yocasta!..." Todos os presentes estacaram e, voltando-se todos para ele, rebentaram numa gargalhada geral que invadiu a sala com estrondo, abafando o até então omnipresente choro do bébé. Recompondo-se, o homem da laracha, interpela ainda o encenador, Desta até o Sófocles se ria!... - Nova gargalhadada colectiva -.
A rapariga, cujo desconcerto lhe tolhera uma vez mais os movimentos, fitava agora com ódio o da coroa e das vestes gregas. Bem metida, riposta o encenador, já podes sair. Então e isto? - pergunta ainda o que trazia a coroa, segurando um cabide com uma lingerie vermelha berrante. Não era suposto ela vestir isto? Não, adverte o homem da plateia, - tens é de dizer a deixa a empunhar o cabide. Ah, ok, então vamos repetir? Interrogou-se ainda. Não vamos nada repetir! - Grita a rapariga - Vamos é acabar já com isto... remata ela em desespero, voltando-se para o encenador.
Subitamente, reaparece em cena o homem do bébé, É para entrar agora? Quando é que é para eu entrar? (O encenador acena uma vez mais negativamente. O homem do bébé, roda sobre os calcanhares frustrado, e volta a sair). Derrotada e incapaz de se defender, a rapariga insiste: Podemos acabar com isto? O encenador aponta para o fundo do palco. Acende-se outro holofote. Ilumina-se o 4º homem. Este, vestido como um nobre, vem montado num cavalo de pau e, desembainhando a espada de latão, começa às voltas no palco, bradando impropériose esconjurando demónios. Depois, estacando, aponta a espada à cara da rapariga e diz num tom grave e acusativo: Duclineia, Duclineia, onde escondes tu os teus moínhos? E - acto contínuo - começa a revirar todos os objectos de cena, desferindo espadeiradas e golpes de punho no ar, vociferando fervorosamente.
Exausta, a rapariga senta-se à boca de cena e tapa os ouvidos com as mãos, dando as costas ao palco e ao reboliço causado pela actuação do 4º homem. As lágrimas escorrem-lhe pela cara. Faz-se de novo silêncio. Todos os homens re-entram e se agrupam no centro do palco, assumindo as posições em que estavam inicialmente. Em uníssono, repetem as suas deixas uma e outra vez. De todas as personagens que foi e que ainda a ensurdecem, a rapariga, encontra numa clareira do pensamento audível o homem da plateia sentado. A máquina do café gorgulha de novo. Aquele cheiro aquoso e familiar reentra-lhe pelas narinas. Quer um café?, pergunta o homem. Desta vez aceito, responde-lhe a rapariga.
Vamos recomeçar?
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