Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Já fui onde tinha que ir

- Tô, papá?
- olá minha querida, então, que tens feito?
- oh!... trabalhado...
- E que tal vão as coisas...?
- Nem imaginas o que a minha chefe disse hoje de manhã...
- então?
- "Se quiserem ir ao café, 'vaiam' agora"...
- (risos) e tu não a vaiaste logo ali?
- era o que devia ter feito... humpf... papá...
- sim?
- trabalhar cansa muito...
- pois cansa minha querida...
- papá...
- sim?
- posso voltar para o liceu?
- podes minha querida.

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

sem título IV

Regressas amanhã de viagem e eu estarei aqui, à porta de mim, silenciosamente à tua espera.
Sabes, agora que o sol chega ao fim do seu caminho diurno, oiço cantar os pássaros como se o dia recuasse às manhãs em que saio da tua casa de encontro à claridade. É tão presente em mim essa imagem de ti a apertar os últimos botões da camisa que a guardo como uma fotografia por revelar. Recordo que de manhã, desde a primeira manhã, que não nos sabemos despedir. Há em nós esse constrangimento de nos deixarmos bruscamente, quando ainda trazemos colada à pele uma película tépida de sono e dos últimos beijos trocados na cama desfeita. Há em nós esse desconforto de migalhas de bolachas, de um fio de leite nas canecas sobre a pia da cozinha. Deixamo-nos sempre com pena de ter pressa, com pena de termos de desenlaçar as mãos. Com pena, enfim, de ter pena das horas breves das nossas manhãs.
Amanhã regressas de viagem e eu terei adormecido já.
Amanhã regressas de viagem e eu estarei, ainda que sem poder sabê-lo, à procura dos teus olhos nos meus sonhos... por não te ter aqui.

ao som de Nils Frahm - over there, it's raining

Sábado, 30 de Maio de 2009

Sem título III

Do teu olhar avistam-se planícies. E creio bem que delas se poderá dizer que as povoam searas de espigas novas cujo viço ainda não dobra o vento, nem seca o estio. Do teu olhar é possível que nasçam manhãs límpidas, porque límpida é e perfeitamente imóvel a sua superfície espelhada. É possível que, à tona do seu mármore verde e liso, seja possível sentir essa face exterior das lajes acabadas de polir. Do teu olhar refulgem por vezes luminárias quando acontece as tuas mãos procurarem o meu corpo debaixo dos lençóis e tomarem-no para si com uma brandura viril e incendiária. Aí o teu olhar lateja como as cores de uma floresta em chamas e tolda-se das formas de um animal vívido e ferino. Depois, quando é já fria a exaustão dos corpos, é como se se dissolvesse toda a tempestividade do verde num céu imperturbável e plúmbeo em que o teu olhar descansa, serenado.
É possível também que tudo isto não passe de uma invenção dos meus olhos à força de serem castanhos só e que os teus, como dizes, mudem só de cor para não me cansar eu de olhá-los e de os ver sempre diferentemente. Contudo, mesmo que tudo o que digo e sinto, ao ver os teus olhos, seja falso, eles parecer-me-ão sempre como duas esferas salgadas que trouxessem consigo o mar.

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

interpretações

Este quadro de Klimt deveria chamar-se "A rapariga com rodilhões no cabelo"
Para mim toda esta questão da gripe dos porcos se tornou num momento de grande reconciliação familiar. Finalmente pude perceber as tentativas desesperadas da minha mãe, ao longo de todos estes anos, para que o meu quarto não estivesse sempre uma pocilga.

Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Sem título II

Nas manhãs das noites em que durmo contigo, acordo com a estridência polifónica do telemóvel e, na névoa de uma sonolência que teima em não se dissipar, afasto a contra-gosto os primeiros farrapos dessa teimosia muda e dormente com os primeiros acordes que saem da aparelhagem em que toca a banda sonora que acompanha os teus rituais de higiene matutinos. Fecho os olhos e só os volto a abrir para te ver abotoar os últimos botões da camisa, a sorrir da minha preguiça e do meu cabelo enrodilhado. Faço cara de menina má e amuada à procura das cuecas por entre os lençóis. Visto enfim a roupa que me despiste por entre gemidos abafados contra o calor do teu pescoço na tenacidade nocturna das tuas mãos. Saio para toda a rua, vergada sob o peso de um claridade infernal e omnipresente. Trago os ouvidos surdos aos gritos dos pássaros e à torrente ininterrupta dos carros que recuam e avançam por entre os sinais. Finjo a frescura, como se também eu houvera tomado banho, ao encarar de frente o rosto amolecido e bafiento do homem do café. Acento um cigarro ao cruzar da primeira passadeira e avanço entre os demais, com o teu cheiro colado ao meu corpo como se isso fosse tudo o que trouxesse vestido. Reparo que os homens olham para mim por detrás dos vidros dos carros e sinto, como que pela primeira vez, uma vaidade culpada e leda de ser afinal o teu cheiro o que os outros não vêem e cobiçam sem saber.



A Beginning - Peter Broderick

Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Sem título I

Sei dizer dos teus olhos muito pouco. E o que sei não chega para dizer deles o que são ou neles se encontra e não é que não tenha empregado, ao contemplá-los, esse esforço de concentração que fazem as crianças quando acham certa estranheza às coisas que não podem conhecer com as mãos. E por vezes parece-me que os teus olhos são uma canção de embalar que se escuta ao longe e nos inquieta não compreender de onde vem. E no entanto, é possível ouvir os teus olhos se a eles se encostar o ouvido, como fazem as crianças quando querem ouvir o mar pela boca aberta dos búzios. Dos teus olhos, não é possível dizer a cor. Quando são cinzentos, contemplá-los é o cimo de um abrigo de onde se avista o horizonte de um mar em tempestade. Um horizonte longínquo, que perturba sem doer. Outras tantas, quando o dia amanhece cedo e o céu se enche subitamente de pássaros, toldam-se desse verde que só se encontra nas copas altas das árvores de que não se sabe o nome. Caminhar pelos teus olhos é como percorrer em silêncio um caminho que já se fez de olhos fechados e, ainda assim, não se decorou.




Embers - Max Richter